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Segunda-Feira, 01 de Set 2014 . 08:25

 

Notícias

"Precisamos de proteger a biodiversidade" . Entrevista a Soki Kuedikuenda

A biodiversidade angolana corre o risco de desaparecer. O alerta é do director nacional da Biodiversidade, do Ministério do Ambiente. Numa entrevista ao Jornal de Angola, Soki Kuedikuenda queixou-se da poluição dos mares pelas empresas petrolíferas e da caça furtiva. Soki Kuedikuenda lembrou que está em vigor, desde 2007, a Estratégia e Plano Nacional para a Biodiversidade, marca o início de uma nova fase na conservação e uso sustentável da biodiversidade no país.

Jornal de Angola - O que a Direcção Nacional da Biodiversidade tem feito para a preservação das espécies?

Soki Kuedikuenda - Para a preservação das espécies, estamos a trabalhar em duas direcções, a primeira para conhecer as espécies e saber em que estado se encontram. Precisamos de conhecer a densidade das populações, a sua dinâmica e as pressões que essas espécies sofrem por parte da população. Outra direcção consiste na preservação activa. Estamos também a trabalhar no sentido de criar novas áreas de conservação. Não há melhor forma de preservar as espécies do que criar áreas de conservação.

JA - E quanto à protecção nos parques nacionais?

SK - O Ministério do Ambiente tem um projecto em carteira que consiste na criação de novas áreas de conservação. Já foram escolhidas as áreas ou províncias ecológicas onde vão ser criadas essas áreas. São, sobretudo, as províncias onde temos florestas. Angola tem seis parques nacionais, mas esses encontram-se em três biomas.

JA – O que são biomas?

SK – São conjuntos de diferentes ecossistemas, comunidades biológicas ou populações de organismos da fauna e da flora, o que quer dizer que há mais de três biomas que não têm áreas de conservação ou parques nacionais. O objectivo é ter uma área de conservação em cada bioma. Os biomas mais necessários são as províncias do Norte e os das montanhas no Planalto Central. Estamos já a fazer os trabalhos na província de Cabinda, e também estão a ser elaborados os termos de referência para as províncias do Zaire, Uíge, Kwanza-Norte, Huambo e Huíla. Estas foram escolhidas como cidades ecológicas de Angola.

JA – Em 2002, o Ministério do Ambiente arrancou com o projecto da Palanca Negra Gigante. Actualmente, qual é a situação?

SK - As buscas da Palanca Negra Gigante continuam. Os animais já foram colocados no santuário que se encontra no interior do Parque Nacional de Cangandala (Malange). Felizmente, estão a evoluir positivamente. O mesmo acontece com as palancas que se encontram na Reserva Natural do Luando (Malange/Bié). Do ponto de vista técnico, ainda há muito que fazer, para a preservação das áreas que são o habitat natural do animal e da preservação da própria espécie. O Ministério do Ambiente, com os seus parceiros, elaborou um novo projecto em colaboração com vários sectores, projecto este que consiste numa maior e melhor conservação desta importante espécie. Actualmente temos no Parque Nacional de Cangandala oito fêmeas e um macho onde se reproduzem, enquanto na reserva do Luando ainda estamos a identificar as fêmeas e os machos.

JA - A biodiversidade marinha e costeira está a ser preservada?

SK - Existe um acompanhamento activo da parte do Instituto Nacional de Investigação Pesqueira (INIP) para a descrição do meio e a avaliação dos stokcs. Felizmente, esta é uma área onde fortes medidas foram tomadas contra os que atentavam contra as espécies marinhas e contra os poluidores da costa, as companhias petrolíferas. Não temos muitos problemas nessa área, porque a gestão por parte do sector das Pescas tem sido muito rigorosa.

JA – Quais são as principais ameaças à biodiversidade em Angola?

SK - No que toca à biodiversidade marinha, temos as actividades da pesca descontrolada, poluição intensa, actividades petrolíferas e o próprio transporte marítimo. Na biodiversidade terrestre existe a agricultura e a urbanização agrícola que constituem grandes ameaças à flora e à fauna. O nosso país tem um desenvolvimento populacional muito célere em detrimento da biodiversidade. A espécie humana vai ocupando espaços úteis à biodiversidade. São instaladas indústrias e fábricas nas florestas, o que também é considerada uma ameaça à biodiversidade angolana. Temos ainda a desmatação, actividades de exploração de madeira e o fabrico de carvão. São actividades que têm um grande impacto sobre a biodiversidade.

JA - Que medidas são tomadas contra as empresas que praticam estas actividades?

SK - O Ministério do Ambiente tem exigido que em cada actividade seja feito um estudo de impacto ambiental para avaliar se a actividade pretendida vai ou não causar consequências ao ambiente.

JA - E no caso das construções ou prática da agricultura dentro das áreas protegidas?

SK - Até agora, existem mais de 18 mil pessoas vivendo nas áreas de conservação, apesar de estar em curso um trabalho de senso habitacional. O Parque Nacional do Bicuar (Huíla) é um exemplo concreto de pessoas residindo no seu interior. Estamos a trabalhar no sentido de educar estas populações para utilizarem de forma sustentável as áreas protegidas e os seus recursos naturais. Mas a tarefa não é fácil, por isso damos prioridade à conservação nas áreas onde a actividade humana é inexistente ou reduzida.

JA - A caça e a pesca furtiva têm causado drásticas reduções nas espécies das áreas protegidas e nas espécies da biodiversidade marinha. Que medidas estão a ser tomadas contra os praticantes destas actividades?

SK - A caça furtiva continua porque não temos ainda um sistema eficaz da fiscalização dentro das áreas de conservação. Para preservar as espécies existe uma medida tomada pelo Ministério da Agricultura, que proíbe a caça em todo o país. O ministério não está a emitir licenças de caça. Hoje, estão apenas a ser concedidas licenças para a caça desportiva e safaris, mas a grande caça tem sido feita pela população do interior das províncias, o que tem preocupado muito as autoridades. Face a esta situação, já foi elaborada uma nova lei que estabelece as regras de gestão das florestas e das áreas de conservação que brevemente vai ser aprovada em Conselho de Ministros.

JA - Quais as áreas onde frequentemente se registam casos de caça frutífera?

SK - Em todas as províncias há prática de caça furtiva. Infelizmente, as pessoas vão também caçar nas áreas de conservação. Como exemplos práticos, temos os casos dos parques nacionais do Yona, Bicuari e Quissama. Animais como o bambi, a vaca do mato, chimpanzé, gorila, chita, elefante, hipopótamo, entre outras espécies, são as principas vítimas dos praticantes da caça furtiva.

JA - A comercialização de animais de espécies raras está a interferir no crescimento da nossa biodiversidade?

SK - O Departamento Nacional da Biodiversidade tem informações sobre casos de comercialização de animais vivos. Temos feito um grande esforço para controlar o comércio de animais vivos. Também existe uma grande pressão sobre muitas espécies para fazer artefactos. Publicámos um livro sobre espécies de animais cuja caça e o comércio são proibidos em Angola, para sensibilizar as pessoas que não sabem que esses animais são protegidos. A fiscalização do Instituto Defesa Florestal (IDF) sanciona as pessoas que violam as leis.

JA - A estratégia para a Biodiversidade aprovada em 2007 já tem resultados?

SK - A Estratégia marca o início de uma nova fase para a conservação e uso sustentável da biodiversidade em Angola, que tem como pano de fundo o contexto actual e a necessidade da conservação da biodiversidade. Esta estratégia tem como objectivo incorporar nas políticas e programas de desenvolvimento medidas para a conservação e o uso sustentável de diversidade biológica e a distribuição justa e equitativa dos recursos biológicos em benefício de todos os angolanos.

JA - Qual o papel das comunidades na gestão da biodiversidade?

SK - Entre 50 e 60 por cento da população de Angola reside em áreas rurais, sendo dependente dos recursos naturais para a sua sobrevivência. Para além de serem as mais afectadas pelos fenómenos naturais, são também as que melhor conhecem a biodiversidade angolana, particularmente em relação à sua distribuição. Os seus conhecimentos são importantes para as actividades de investigação científica. As comunidades locais devem ter um papel chave a desempenhar na gestão e conservação da biodiversidade, o que está fortemente relacionado com o uso sustentável dos recursos. O envolvimento comunitário é importante no acesso à partilha de benefícios dos recursos da biodiversidade.

JA - Porque foi declarado 2010 como o Ano Internacional da Biodiversidade?

SK - Este ano foi declarado pela Assembleia Geral das Nações Unidas como o Ano Internacional da Biodiversidade por várias razões. Uma delas é sensibilizar as pessoas sobre a protecção da biodiversidade e outra é para alertá-las sobre as ameaças à biodiversidade e reforçar a importância de conservar a biodiversidade, para o bem-estar do homem para o desenvolvimento sustentável. As actividades culminam com a realização da Convenção sobre a Diversidade Biológica, a ter lugar em Junho próximo em Nagoia, no Japão.


in Jornal de Angola de 2010-03-24